domingo, 19 de setembro de 2010

Mari...Alma de Escritora

Quero partilhar com todos, um texto brilhante de uma amiga, feito durante o nosso 1º Semestre de Ciências Contábeis em 2006.

   
Certa Aula de Contábeis
(Por Marilene Barbosa )
 
Cedinho, madrugada escura ainda, quando acordei. Noite mal dormida. O calor estava insuportável! Lá pelas tantas da madrugada, tirei um cochilo ouvindo o início de uma chuva fininha (que viera de propósito com um vento quente e frouxo).

Passei o dia imprestável, cochilando, caladona, meio triste. Almocei pouco, o estômago estava ruim, a cabeça pesada. Cheguei cedo à faculdade, tudo vazio, coisa mais triste e sem vida.

Era dia de aula do Professor Paulo Henrique. Ele resolveu passar o filme “A Vida de David Gale” para segunda avaliação de aprendizagem.

Os outros alunos foram chegando. A porta foi fechada. O ar a gente podia vê-lo mover-se – lesma amarela, quente, pegajosa, arrastando-se. A dor de cabeça apertou. Arriei-me na dura cadeira da academia. Levantei-me para a retardatária da Iandra passar, sentei-me de novo. O movimento balançou a dor dentro da cabeça, que latejou.

Na televisão o filme ia seguindo, desenrolando, enrolando... Um brilhante professor de filosofia no corredor da morte, aguardando uma repórter para contar-lhe toda a verdade. Acusado de estupro e assassinato. Inocente. A vítima suicidou-se.

A cabeça estalou. Procurei na bolsa um comprimido qualquer. O movimento novamente balançou a dor, pesada, em cima das sobrancelhas e no começo da nuca. O jeito era eu ficar imóvel, olhos fechados.

Bitsey Bloom era a repórter que o acusado escolheu para dar a entrevista exclusiva. Ela e um estagiário ficaram estarrecidos, impressionados com a história. Receberam uma fita de vídeo vhs com os últimos minutos de vida da vítima. Triste, horrível...

Olhos cerrados de novo, mas sabia que não podia ficar muito tempo assim, tinha de prestar atenção. Talvez seja o estômago vazio, sem o jantar.

Um bater aflito de pernas chamou-me a atenção. Era a moça nua, com manchas escuras no corpo, a pele branca, descarnada, a perna ainda pedalou solta... De bruços... Algemada... Leucêmica... Morta! Eu teria mesmo que agüentar aquele horror?

O estômago, com toda certeza – ânsia de vômito que subiu, queimou o peito, amargou a garganta. Ânsia e tonteira: o povo todo rodou na sala, tudo rodou...

Mormaço entrando por toda a parte, até pelos tijolos rebocados e pintados, um forno! Miséria de sala quente, pegajosa, o suor peguento também, que nem escorrer escorria, grudento nos cabelos, no rosto, no pescoço. Passei a mão úmida pelas faces quentes, a cabeça pesada e dolorida, um molambo!

O corpo inteiro, as costas, as pernas, as solas dos pés: tudo pegando fogo... O sangue correndo em labaredas, queimando... Tudo ardia, estalava, sacudia, ameaçando desabar. Conversas, vozes, Hugo, Cláudio e Junio sempre falantes. Senti frio, água fria, gelada, escorrendo pelos cabelos, pelo rosto, pelas costas, pelo corpo. Friagem de gelo.

O acusado do filme não é assassino, é covarde! Não matou, deixou a melhor amiga matar-se diante de seus olhos, da câmera onde ele filmou o suicídio... Até o fim... Um monstro, alcoólatra, insensível, covarde!!

Nem o nosso Professor suportou o abafamento daquela sala quente (ar condicionado imprestável!). Abriu a porta, saiu um pouco, arejou, entrou, fechou a porta. Não havia escapatória: teria mesmo que agüentar aquele horror de filme até o fim. O Paulo Henrique, só porque estudou, acha que entende de tudo: “vocês vão ver!” Um bom mestre, coitado, bom amigo, maneiroso... Um diplomata. Deus te guie. Vá com toda as tuas implicâncias, as tuas faltas de paciência. Mas traga a tua experiência, os teus conhecimentos, a tua sabedoria, os teus conselhos...

A boca visguenta, amarga, a preguiça de pensar, conversar. Antipatia do professor de filosofia... Antipatia do advogado, do estagiário, da jornalista metida a importante, do Unieuro, do pessoal da sala, do filme...

O calor voltou modorrento. A sala, de novo: giraram todos – devagar, mas a velocidade aumentou até os rostos confundirem-se. Depois rodopiaram ao contrário: a Eliana sempre descalça, a Raineide, a Vilma, a Regiane e a Natércia com os cabelos pretos e compridos, o sorriso enigmático do Bruno... Fogo, água, fogo, água fria, tudo ficou vermelho e girou de ponta-cabeça, sem cair – até a moça nua, algemada, fita adesiva na boca, saco plástico na cabeça, inerte, de bruços...

Precisava de um banho de chuveiro, ducha fria, água para afogar e derrubar de tanta pressão, para lavar até a alma. Sair do mofo grudento, fedendo a cesta de roupa suja, botar um pijama limpinho, velho, bem usado, cheirando a amaciante de roupas... Respirar, respirar, fugir do abafadiço e do escuro.

De repente, tudo acabou, acenderam-se as luzes, abriu-se a porta, um ventinho frio entrou pela sala, bateu em meu rosto, sacudiu os cabelos e pude ir para casa, dormir o sono dos justos.